quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

"... um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão."

As atuais declarações do Papa Francisco à respeito dos dogmas católicos surpreendem a comunidade como um todo. Abaixo, traço um paralelo entre o discurso do Papa e trechos da obra de Allan Kardec, que servem de reflexão à respeito da futura fusão das religiões, comentada no seguinte trecho de "O céu e o inferno", capítulo I:

 "Todas as religiões admitiram igualmente o principio da felicidade ou infelicidade da alma após a morte, ou, por outra, as penas e gozos futuros, que se resumem na doutrina do céu e do inferno encontrada em toda parte.
No que elas diferem essencialmente, é quanto à natureza dessas penas e gozos, principalmente sobre as condições determinantes de umas e de outras.
Daí os pontos de fé contraditórios dando origem a cultos diferentes, e os deveres impostos por estes, consecutivamente, para honrar a Deus e alcançar por esse meio o céu, evitando o inferno.

12. - Todas as religiões houveram de ser em sua origem relativas ao grau de adiantamento moral e intelectual dos homens: estes, assaz materializados para compreenderem o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram consistir a maior parte dos deveres religiosos no cumprimento de fórmulas exteriores.
Por muito tempo essas fórmulas lhes satisfizeram a razão; porém, mais tarde, porque se fizesse a luz em seu espírito, sentindo o vácuo dessas fórmulas, uma vez que a religião não o preenchia, abandonaram-na e tornaram-se filósofos.

13. - Se a religião, apropriada em começo aos conhecimentos limitados do homem, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais.
O homem quer saber donde veio e para onde vai. Mostrando-se-lhe um fim que não corresponde às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, tampouco aos dados positivos que lhe fornece a Ciência; impondo-se-lhe, ademais, para atingir o seu desiderato, condições cuja utilidade sua razão contesta, ele tudo rejeita; o materialismo e o panteísmo parecem-lhe mais racionais, porque com eles ao menos se raciocina e se discute, falsamente embora. E há razão, porque antes raciocinar em falso do que não raciocinar absolutamente.
Apresente-se-lhe, porém, um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo sente em seu foro intimo, e que aceitará à falta de melhor crença.
O Espiritismo dá coisa melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que inutilmente o têm combatido.

14. - Instintivamente tem o homem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os sistemas que originaram a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro - não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista -congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou flutuantes e trará gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contacto dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão."

A seguir parte do discurso do Papa Francisco, traduzido do site Mundo História:




"Em suas últimas revelações , o Papa Francisco disse :

 "Por meio da humildade , da introspecção e contemplação piedosa adquirimos uma nova compreensão de certos dogmas . A igreja já não acredita em um inferno literal , onde as pessoas sofrem . Esta doutrina é incompatível com o amor infinito de Deus. Deus não é um juiz , mas um amigo e um amante da humanidade. Deus nos procura não para condenar, mas para abraçar . Como a história de Adão e Eva , nós vemos o inferno como um artifício literário . O inferno é só uma metáfora da alma exilada (ou isolada), que, como todas as almas em última análise, estão unidos no amor com Deus."

Em um discurso poderoso que está repercutindo em todo o mundo , o Papa Francisco declarou:

"Todas as religiões são verdadeiras , porque elas são verdadeiras nos corações de todos aqueles que acreditam neles. Que outro tipo existe realmente ? No passado , a igreja a igreja considerava muitas coisas como pecado que hoje já não são julgadas dessa maneira . Como um pai amoroso, nunca condena seus filhos. Nossa igreja é grande o suficiente para heterossexuais e homossexuais , por pró-vida e pró- escolha! Para os conservadores e liberais , até mesmo os comunistas são bem-vindos e se juntaram a nós . Todos nós amando e adorando o mesmo Deus ."

Nos últimos seis meses , os cardeais, bispos e teólogos católicos têm debatido na Cidade do Vaticano sobre o futuro da Igreja e da redefinição das doutrinas católicas e seus dogmas.

O Terceiro Conselho do Vaticano com o Papa Francisco concluiu anunciando que …

"O catolicismo é uma religião agora “moderno e razoável , que passou por mudanças evolutivas. Hora de deixar toda intolerância. Devemos reconhecer que a verdade religiosa evolui e muda . A verdade não é absoluta ou imutável. Mesmo ateus reconhecem o divino. Através de atos de amor e caridade ateu reconhece Deus , bem como, redime a sua alma , tornando-se um participante ativo na redenção da humanidade."

A declaração sobre o discurso do Papa enviou os tradicionalistas a um ataque de confusão e histeria .

"Deus está mudando e evoluindo como nós porque Deus habita em nós e em nossos corações. Quando espalhamos o amor e bondade no mundo , nós reconheceremos nossa divindade . A Bíblia é um livro sagrado bonito, mas como todas as grandes obras antigas , algumas passagens estão desatualizadas. Algumas passagens chamam mesmo para intolerância ou julgamento. É o tempo de ver estes versos como interpolações posteriores , contra a mensagem do amor e da verdade , caso contrário, irradiando através da Escritura chegou. Com base em nossa nova compreensão , vamos começar a ordenar mulheres como cardeais, bispos e sacerdotes. No futuro , é minha esperança de que , um dia , um papa feminino não permita que qualquer porta que está aberta para um homem seja fechada para uma mulher.
Alguns cardeais da Igreja Católica são contra as recentes declarações do Papa Francisco.’





O discurso notável do Papa, levanta questões que Kardec havia levantado em 1865 com a publicação do livro "O céu e o inferno" ou ainda, em 1868 com "A Gênese".

1. A negação de um inferno literal, incompatível com a bondade de Deus

Kardec aborda em "A Gênese" que compreendendo a natureza divina, teremos o eixo central, o critério de análise de qualquer doutrina, dogma ou crença:

"É assim que, comprovada pelas suas obras a existência de Deus, por simples dedução lógica se chega a determinar os atributos que o caracterizam.
19. - Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições, e não pode ser diverso disso.
Tal o eixo sobre que repousa o edifício universal. Esse o farol cujos raios se estendem por sobre o Universo inteiro, única luz capaz de guiar o homem na pesquisa da verdade. Orientando-se por essa luz, ele nunca se transviará. Se, portanto, o homem há errado tantas vezes, é unicamente por não ter seguido o roteiro que lhe estava indicado.
Tal também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas. Para apreciá-las, dispõe o homem de uma medida rigorosamente exata nos atributos de Deus e pode afirmar a si mesmo que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que estiver em contradição com um só que seja desses atributos, que tenda não tanto a anulá-lo, mas simplesmente a diminuí-lo, não pode estar com a verdade.
Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só há de verdadeiro o que não se afaste, nem um til, das qualidades essenciais da Divindade. A religião perfeita será aquela de cujos artigos de fé nenhum esteja em oposição àquelas qualidades; aquela cujos dogmas todos suportem a prova dessa verificação sem nada sofrerem."

Se Deus é infinitamente bom e justo, como pediria aos seus filhos perdão se ele mesmo se faz juiz irrevogável das causas humanas?

Ainda há outros aspectos da justiça divina tratados no livro dignos de consideração. Que Deus justo é este que escolhe privilegiados para habitarem o céu, perfeito e feliz? Que felicidade é a dos eleitos do paraíso caso separados se seus amigos e familiares? Seria uma mãe feliz no céu, ouvindo o ranger de dentes de seu filho no inferno?

2.O inferno e Adão e Eva como artifícios literários

Allan Kardec em "O céu e o inferno" também trata dessa questão ao explorar a questão do inferno cristão imitado do inferno pagão:

"O inferno cristão imitado do inferno pagão

3. - O inferno pagão, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo mais grandioso do gênero, e perpetuou-se no seio dos cristãos, onde, por sua vez, houve poetas e cantores. Comparando-os, encontram-se neles - salvo os nomes e variantes de detalhe - numerosas analogias; ambos têm o fogo material por base de tormentos, como símbolo dos sofrimentos mais atrozes. Mas, coisa singular! os cristãos exageraram em muitos pontos o inferno dos pagãos. Se estes tinham o tonel das Danaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo, eram estes suplícios individuais; os cristãos, ao contrário, têm para todos, sem distinção, as caldeiras ferventes cujos tampos os anjos levantam para ver as contorções dos supliciados (1); e Deus, sem piedade, ouve-lhes os gemidos por toda a eternidade. Jamais os pagãos descreveram os habitantes dos Campos Elíseos deleitando a vista nos suplícios do Tártaro. (2)
    (1) Sermão pregado em Montpellier em 1860.
    (2) "Os bem-aventurados, sem deixarem o lugar que ocupam, poderão afastar-se de certo modo em razão do seu dom de inteligência e da vista distinta, a fim de considerarem as torturas dos condenados, e, vendo-os, não somente serão insensíveis à dor, mas até ficarão repletos de alegria e renderão graças a Deus por sua própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios." (S. Tomás de Aquino.)"

3. Necessidade de reconhecer que a religião evolui, assim como a humanidade

"Ora, não se pode negar que o ceticismo, a dúvida, a indiferença ganham terreno cada dia, apesar dos esforços da religião em contrário. Isso, é positivo. Se a religião é impotente contra a incredulidade é que lhe falta alguma coisa par combatê-la, de tal maneira que, se ela se imobilizasse, em pouco tempo estaria inevitavelmente superada. O que lhe falta neste século de positivismo, onde se quer compreender para crer, é a sanção das suas doutrinas pelos fatos positivos. E é também a concordância de algumas doutrinas com s dados positivos da ciência. Se ela diz branco e os fatos dizem negro. temos forçosamente de ter de optar entre a evidência e a fé cega."

Essa passagem de Kardec, em "O céu e o inferno", deixa bem clara a incapacidade de doutrinas dogmáticas em prevalecerem frente ao progresso da ciência e da humanidade, se assemelhando realmente à sombras na história que tentam pela força ou pelo medo impor suas verdades eternas sem abrir espaço para a reflexão racional e fraterna. As declarações do Papa Francisco vem dar novas esperanças para o reacender da mensagem de Cristo na Terra, em tempos de renovação planetária.

Aqui foram feitos simples apontamentos, ainda há muito a ser tratado à respeito da Justiça divina, das penas e gozos futuros, mas para isso cabe a leitura completa de "O céu e o inferno". Outro aspecto importante e que deve ser considerado, é o estudo da construção (imaterial e material) das primeiras igrejas e sua importante função na Terra de propagar o cristianismo, muito bem explorado em "Paulo e Estêvão, livro de Emmanuel psicografado por Chico Xavier. 





2 comentários:

  1. Kardec nos trouxe através das tantas comunicações e estudos, uma gama ligeiramente nova de conhecimentos doutrinários, não para hipnotizar os menos favorecidos de intelectualidade, nem para privilegiar um povo, mas para gerar um progresso como um todo, afastando o materialismo em excesso, o desejo de poder, que é motivo das milhares de distensões no cristianismo. De fato todas as religiões estão certas, mas só com o ideal de justiça e bondade divinas, é que vamos evoluir de uma maneira uníssona.

    Parabéns pela análise!

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  2. Parabéns pelo comentário! Demais... \o/

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